O Corvo


Desde que eu era pequeno, caçar era meu hobby favorito. Meu pai me apresentou a essa atividade assim que decidiu que eu tinha idade o bastante para manejar um rifle – eu estava com sete anos, na época. Marco Dolan era um homem robusto, sempre com a barba por fazer e cujas roupas sempre exalavam um cheiro característico, uma mistura de terra e cigarro. Eu sempre sabia que meu pai estava por perto somente pelo olfato, antes mesmo de vê-lo ou ouvi-lo. Ele era um homem rígido. Sabia impor suas regras na casa, e depois das primeiras surras por desobediência, aprendi a não contrariá-lo. Contanto que eu andasse na linha, ele era como qualquer outro pai, ansioso por passar ao filho a tradição dos homens da família – a caça. Eu, logicamente, expressava tanta ansiedade quanto ele, e sempre o admirava quando ele chegava de uma caçada, com suas botas e roupas sujas de terra e grama, o rifle seguro entre os dedos e os animais abatidos (eram aves, normalmente) dentro de sacas ensanguentadas.
            Foi uma alegria para mim, então, quando Marco disse que eu estava pronto. Ganhei meu próprio rifle, cuja maneira de usar ele me ensinou em pouco tempo. Logo, eu o acompanhava durante as temporadas – sempre íamos aos arredores do Lago Cristal, em uma floresta que não ficava tão longe da fazenda onde morávamos.
            Essa era a grande diferença entre eu e meu pai. Aquela invariabilidade me entediava. Queria ir a lugares diferentes, desconhecidos; queria uma aventura ou um desafio. A única vez em que me atrevi a expressar aquelas ideias, tomei um tapa e um conselho:
            - Desafios vão te meter em problemas, Joe. Escute o que eu digo, garoto. Chega de ideias; caçar no Cristal já é aventura o suficiente para você.
            As coisas continuaram assim por muitos anos. Mesmo quando me tornei independente e deixei de morar na fazenda, nunca me atrevi a caçar fora daquele lago, até nas vezes em que ia sem meu pai. Não ousei desobedecê-lo; é difícil perder certos hábitos. Foi no ano de 1996, no entanto, que Marco Dolan sofreu o ataque cardíaco que o matou.
            A notícia foi um choque para mim. Passei alguns meses em profundo luto, mas então comecei a enxergar aquilo de uma outra maneira. Eu estava livre, agora. Livre para as aventuras e os desafios que há tanto me haviam sido negados. Era hora de começar a viver.
            Foi então que decidi tirar um ano para me dedicar inteiramente à caça. Pedi demissão no trabalho. Eu tinha uma pequena fortuna acumulada, fruto de anos de trabalho duro e poupança, que serviriam para me sustentar durante aquele período. Comprei equipamentos novos, mapas de lugares remotos e distantes, pesquisei na internet por points que me permitissem manter uma atividade constante durante o ano inteiro. Alguns dias depois de minha decisão, eu estava em meu carro, levando comigo apenas uma pequena mala com algumas roupas, o equipamento e algum dinheiro.
            Ah, como aquilo era maravilhoso! Viajando constantemente, hospedando-me em hotéis e pousadas em locais remotos, enfrentando matas e pântanos. Não me detinha somente em aves, e minhas presas passaram a ser as mais variadas. Uma vez cheguei a matar um jacaré. Me enchi de orgulho, e não pude deixar de pensar em meu velho pai e seu conselho... ele estava completamente errado. O Lago Cristal não era aventura o suficiente para mim. Isso, sim, era aventura de verdade!
            Eu já estava há alguns meses naquelas viagens quando reparei no corvo pela primeira vez. Talvez ele estivesse me acompanhando desde o início, porém eu nunca o havia visto realmente até aquele dia. Eu estava na Floresta Galis, espreitando por entre ramos em busca de algum animal desavisado, quando um brilho vermelho me chamou a atenção nos galhos mais altos de uma árvore um pouco à frente. Lentamente, com o mínimo de ruído possível, direcionei meu rifle naquela direção e estreitei o olhar para enxergar melhor. A floresta era densa, e um tanto quanto escura, portanto levou um certo tempo até eu realmente divisar o que estava vendo.

            Era um corvo, porém não podia ser um corvo comum. Ele era pelo menos duas vezes maior do que a ave normal, e apesar disso suas penas negras fundiam-se com o cenário de maneira a deixá-lo quase invisível. Um arrepio me percorreu a espinha quando notei seus olhos, que não eram negros, mas de um vermelho intenso – era o que havia me chamado a atenção inicialmente. Estavam voltados para mim, embora eu fizesse o máximo para não emitir o menor ruído. Segurava o rifle firmemente em minhas mãos, e deveria ter atirado. Porém, eu não conseguia me concentrar em nada além daqueles olhos que me encaravam. Pareciam... inteligentes, quase malévolos. Como alguém que está desejando, esperando algo. Havia alguma força de atração neles, hipnotizante e aterrorizante ao mesmo tempo. Eu queria saber o que era, mas também queria me virar e sair correndo. Enfrentava esse dilema quando um estalo quebrou meu transe. O corvo soltou um grasnido alto e rouco e levantou vôo, enquanto eu me virava em direção ao som, com o coração aos pulos.
            Era um pequeno cervo, que provavelmente havia pisado em algum galho caído e o quebrado, emitindo aquele estalo. Ao perceber toda aquela movimentação, no entanto, ele imediatamente partiu correndo, antes mesmo de eu me recuperar o bastante para mirar.
            Eu estava trêmulo e ofegante, como se houvesse corrido uma maratona. Dei uma última olhada para cima, mas não encontrei mais aqueles olhos vermelhos e senti uma pontada de alívio. Decidi retornar ao hotel e encerrar o dia mais cedo. Aquele corvo me deixara inquieto, e o melhor a fazer seria descansar.
            Assim que saí da floresta e me encontrei em local aberto, sob a luz do sol, minha mente começou a duvidar do que eu vira. Devo estar muito cansado. Posso ter imaginado o bicho, estava escuro. Ou então pode ser apenas uma espécie de corvo que eu não conheço, maior e de olhos vermelhos. Só uma ave comum.
            Durante os quinze minutos de carro até o hotel, repeti aquilo para mim mesmo, de modo que ao chegar em meu pequeno quarto alugado, já havia me convencido de que nada de anormal acontecera. Tomei um banho e me sentei à janela para observar o crepúsculo antes de ir para a cama. Tinha uma longa viagem no dia seguinte.
            Aquela noite, tive pesadelos com olhos vermelhos de uma grande ave preta, seu bico afiado sujo de sangue. Acordei com um grito, suado, sob o som de uma intensa chuva que martelava as janelas. Somente alguns minutos depois, após tomar um copo d’água, consegui de fato me acalmar. Eram três e vinte da madrugada. Decidi ignorar o sonho – aquilo era um medo irracional, uma coincidência, não relacionada com o acontecido da floresta. Virei-me de lado decidido a dormir novamente.
            Quando acordei na manhã seguinte, o vento ainda assobiava, embora a chuva houvesse se reduzido a uma leve garoa. Pensei que, se o tempo ruim permanecesse por muito mais, talvez atrapalhasse minha próxima caçada, porém foi com renovada energia que entrei em meu carro rumo à próxima floresta; que chovesse! Seria um desafio novo, afinal.
            Foi enfrentando algumas pancadas de água um pouco mais intensas, intercaladas com aquela garoa fina, que cheguei na Pousada do Sol ao cair da noite. Era um local aconchegante, tipicamente interiorano, embora um tanto quanto vazio e com aspecto de que não havia muito movimento. Aquela era uma área bastante isolada, e espantava-me o fato de a Pousada sobreviver por ali.
            Fui atendido por um senhor todo enrugado, quase raquítico, com ralos cabelos brancos. Sua voz soava tão desgastada quanto ele parecia.
            - Boa noite, meu jovem. Posso ajudá-lo?
            - Gostaria de alugar um quarto por uma noite. O mais barato.
            - Um instante, já pegarei a chave para você. Me desculpe a pergunta, mas o que faz em um lugar como esse com essa chuva? Raramente temos clientes nessa época do ano.
            - Vou para a Floresta Antiga, amanhã. Sou caçador.
            O velho parou por um instante com a mão estendida para um painel de chaves atrás do balcão, e voltou seus olhos para mim. Seu olhar fez com que eu me sentisse inquieto novamente; as pupilas vermelhas do corvo passaram em um flash por minha mente. Tão rapidamente quanto ele se virara, no entanto, voltou sua atenção para as chaves e aquela estranha sensação desapareceu.
            - Ora, meu jovem, não devia caçar com esse tempo. A Floresta Antiga tem um terreno muito perigoso, muitos barrancos e rochas em alguns trechos. Já tivemos alguns... acidentes bem desagradáveis por lá.
            Havia um tom contido em sua voz, como se houvesse algo por trás daquilo que ele falava. Não dei muita importância. Eu estava atrás do perigo, não era esse o motivo de ter escolhido aquele lugar entre tantos na internet? Exibi um sorriso para meu atendente.
            - Eu sei. Tomarei cuidado. Estou acostumado com a mata.
            Ele suspirou e me estendeu uma pequena chave enferrujada.
            - Não com esta... – essas primeiras palavras saíram em um murmúrio – Mas já que você diz. Aqui está, quarto 65. São 40 reais. Pagamento só em dinheiro, por favor.
            Remexi em meu bolso e retirei dali algumas notas, que entreguei ao velho.
            - Muito obrigado.
            Deixei aquele estranho senhor no balcão e me retirei para o quarto. Era extremamente rústico, mas eu não procurava o luxo, então ele servia ao meu propósito. Como havia enfrentado a estrada durante o dia inteiro, não demorei a dormir.
            Não tive pesadelos essa noite, e acordei ao nascer do sol. A chuva havia parado, mas o céu ainda exibia um tom acinzentado salpicado por nuvens escuras. O café-da-manhã da Pousada já havia começado a ser servido – esses lugares sempre se adequavam aos horários daqueles que normalmente o frequentavam – e a comida era farta e deliciosa. Não vi o velho, somente um jovem rapaz que deveria ser seu ajudante; não poderia ter mais do que vinte anos. Não avistara nenhum outro hóspede quando finalmente entrei em meu carro, já vestido e preparado para a caça.
            Meia hora depois, estacionei em frente ao começo de uma floresta tão densa quanto aquela em que eu estivera dois dias antes. A Floresta Antiga era extensa, fechada e úmida; um local não muito conhecido e cujo terreno dificultoso impedia que muitos caçadores se aventurassem por ali. Quando li sobre ela em um site, sabia que era o local perfeito para mim. Apanhei meu rifle e, tomado por antecipação, adentrei a floresta.
            A primeira coisa que notei foi o cheiro abafado, de terra molhada e vida selvagem. Eu mal havia penetrado alguns metros quando a escuridão quase total me encobriu; agucei minha visão e os outros sentidos para poder me movimentar. As árvores pareciam se curvar para cima de mim com galhos retorcidos, e o solo úmido afundava maciamente sob minhas botas. Todo e qualquer som parecia ter sido abafado. O silêncio era sepulcral.
            Havia algo naquela floresta. Seu nome passava a fazer mais sentido: era como se houvesse uma presença, espreitando em cada canto, nas árvores, no chão e no ar, algo antigo, poderoso e atemporal.
            Não faço ideia de quanto tempo passei ali, sem ver nenhum indício de um animal para tomar como minha presa. Me locomovia devagar, devido à precariedade do solo sob meus pés. Perdi a noção das horas, sequer sabia se era dia ou noite naquela escuridão. Só havia eu, meus sentidos, e a floresta. A caça.
            E, então, eu o vi.
            Ele estava empoleirado da mesma maneira que antes; em uma árvore um pouco mais afastada. O vermelho de seus olhos parecia ainda mais forte dessa vez, e aquilo era a única coisa que me avisava de sua presença. O restante de seu corpo estava completamente acobertado pelo breu.
            A presença na floresta ficou mais opressora. O vento começou a soprar por entre as árvores, e mais pareciam sussurros que elas trocavam entre si em uma linguagem desconhecida. Senti aquele impulso de me mover em direção ao corvo novamente, dessa vez muito mais forte, superando a vontade de fugir. Inconscientemente, larguei o rifle, deixando-o em meio à lama ao meu lado. Algo controlava meu corpo; meus pés começaram a se movimentar para a frente lentamente, enquanto meu olhar ainda imergia no vermelho, incapaz de se desviar.
            De repente, o chão sumiu sob meus pés, e meu corpo foi impelido para baixo enquanto eu despencava de um barranco. Despenquei de barriga para cima na lama, com diversos cortes ardendo onde eu os raspara em galhos e uma dor lacinante na coluna. Para meu desespero, ao tentar mexer minhas pernas, não consegui. Forcei-me para cima com os braços, porém não consegui mais do que ficar sentado; o esforço me deixou exausto.
            Um grasnir chamou minha atenção e levantei a cabeça para encarar aqueles olhos vermelhos novamente. Estavam próximos, agora. O corvo havia alçado voo e pousado a alguns metros de distância. O medo tomou conta de mim e tentei me arrastar com os braços para trás, porém minhas costas se chocaram com uma parede de terra. O corvo me encurralara entre ele e o barranco.
            Seus olhos faiscavam; eu podia ver o desejo neles e a maldade. Eram tão, tão vermelhos. Quase pareciam sangue.
            Ele emitiu aquele som horrendo novamente e começou a se aproximar. Talvez tenham sido alguns segundos, talvez séculos, até que ele estivesse sobre mim. Não conseguia sentir seu peso em minhas pernas, mas suas garras certamente se apoiavam ali. O vento sussurrou mais alto e o vermelho ficou mais intenso.
            Gritei; foi minha única reação. Berrei o mais alto que podia, incapaz de me levantar e correr, quando senti o corvo dilacerando meu braço com seu bico afiado e arrancando um pedaço de carne. Só uma ave comum, Joe. Desafios vão te meter em problemas, Joe. Mais um pedaço. Mais um. Corta, engole, corta, engole. Está gostoso? Qual é o meu gosto, Senhor Corvo?

A dor era tão lacinante que comecei a rir. Um ataque de histeria me acometeu, enquanto o bico retirava um naco de carne atrás do outro, o cheiro de sangue me dominava e aqueles olhos vermelhos não me deixavam escapar.
A refeição está de seu agrado, Senhor Corvo?
Quando eu achava que aquilo nunca acabaria, a ave parou. Suas pupilas vermelhas se fixaram nas minhas mais uma vez, e o mundo ficou vermelho, depois preto. O bico se abriu e dele veio um ensurdecedor grasnar, seguido por um nauseante plop e mais dor. Dor, dor, dor no meu rosto, pior do que antes.
O mundo deixou de ser preto, e minha visão estava estranha e um tanto nublada pela dor. Algo estava incompleto, e então eu vi aquela bola branca presa ao bico do corvo, pequenos fios sagrentos ainda ligados a uma de suas extremidades.
Meu próprio globo ocular me olhou de volta.
Estou olhando meu olho. Haha, meu olho me olha, eu olho meu olho. Corvo preto, de olhos vermelhos, vai comer o meu olho?
Corvo preto, corvo bonito, meu olho sangrento está em seu bico.
Corvo vermelho, preto sangrento, bonito olho.
Corvo olho, bonito sangrento, vermelho preto...
Corvo sangrento, olho bonito, coma meu olho...

Um comentário:

  1. Essa história me lembra um conto do Guy de Maupassant, justamente por causa de uma caçada, ao mesmo tempo que penso no corvo do Poe. Muito bom!

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Quem escreve

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Thais Pampado. 20 anos. Escritora e estudante de Produção Editorial. Apaixonada por livros e por escrever. Lê praticamente qualquer gênero, mas tem uma paixão especial por fantasia e YA.
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