O Homem






            O Homem sempre vinha durante a noite.
            Na primeira vez em que ele apareceu, o relógio marcava duas horas da madrugada. Miguel tinha sete anos; era pura inocência e curiosidade em seu pequeno envoltório de menino. O quarto era fracamente iluminado pela luz da lua que entrava pelo vidro da janela fechada, e os objetos lançavam sombras em ângulos estranhos pelas paredes. O Homem surgiu de repente, uma sombra mais densa destacando-se das outras sem emitir som algum. Não era possível ver seu rosto ou qualquer outra parte de seu corpo, pois o mesmo estava coberto por um longo manto preto; no entanto, sua presença foi acompanhada por um sopro de vento gelado que não poderia ter vindo do lado de fora.
            Miguel assustou-se com a aparição repentina, mas não tentou afastá-la nem gritou, o que talvez tenha sido uma prova de sua ingenuidade infantil. O menino apenas apertou mais os cobertores em torno de si e ficou espiando o desconhecido. Alguns minutos se passaram e nenhum deles se moveu. O ar estava tenso e carregado com uma espécie de antecipação – como se algo importante estivesse para acontecer. E estava, só que Miguel não sabia disso.
Se soubesse, e soubesse o que aquilo iria desencadear, não teria deixado o Homem falar.
            - Tens meu corpo, garoto?
            A voz que saiu por debaixo do capuz era desgastada e áspera, como se fosse utilizada uma lixa para raspar a garganta. Ao responder, a voz de criança de Miguel soou extremamente aguda, embora ainda fosse pouco mais do que um sussurro.
            - Qual o seu nome? E por que você fala estranho?
            - Nome eu tinha quando era vivo, não o tenho mais. Tens meu corpo, garoto?
            Sem entender, Miguel continuou em silêncio, os olhos fixos na sombra à sua frente, os dedinhos agarrados firmemente ao cobertor. O Homem aproximou-se da cama e o menino encolheu-se ainda mais com a súbita intensificação do frio.
            - Estás no local onde meu corpo me foi tomado – queimado, torturado, mutilado. Terás de devolvê-lo, de uma maneira ou de outra.
            Dito isso, o Homem desapareceu, deixando para trás um menino com lágrimas de medo escorrendo pela face.

--

            O Homem retornou exatamente um ano após sua primeira aparição. Dessa vez, Miguel estava dormindo, porém o frio fez com que despertasse. Quando percebeu aquela figura em seu quarto novamente, seu primeiro reflexo foi preparar-se para gritar, mas ao inspirar sua garganta se fechou e ele começou a engasgar.
            - Permaneça calado.
            A ordem foi pronunciada pela voz rouca com força e ódio. O menino voltou a ser capaz de respirar, mas obedeceu. Seu corpo foi tomado por tremores involuntários, seus dentes rangiam, as unhas se cravaram na palma da mão. Os olhos se fecharam e ele tentou se convencer de que aquele era um pesadelo. Não era real, não era real, não era real...
            O Homem postou-se ao lado de Miguel. A parte de seu manto que corresponderia ao braço se ergueu e cobriu os olhos do garoto, cujo corpo imediatamente enrijeceu. Dois olhos vermelhos como fogo surgiram no Homem.
            Ao acordar na manhã seguinte, Miguel estava cego.

--

            O Homem vinha todos os anos, sempre na mesma data. Os olhos vermelhos foram apenas o começo da cobrança prometida por sua primeira visita. Na terceira vez que ele apareceu, tocou os ouvidos de Miguel, que perdeu a audição. Na quarta, foi a boca, e o garoto perdeu a voz. Na quinta e na sexta, perdeu o movimento dos braços, e nas próximas duas, ambas as pernas ficaram paralisadas. Quando o Homem surgiu pela nona vez, o menino inocente de sete anos não era nada além de uma casca na forma de um garoto de quinze, funcional apenas pelo bombear do coração e pelas ondas cerebrais.
            A chegada foi pontuada pelo costumeiro frio, mas trouxe também um cheiro putrefato de carne em decomposição. Não havia mais manto, somente um amontoado de carne e pedaços de pele carcomidos por vermes, que vinha para uma última visita.
            O Homem esticou os dedos pegajosos e tocou o peito do garoto.
            A risada rouca do morto-vivo ecoava no quarto quando o coração de Miguel parou de bater.

2 comentários:

  1. Olá Thais, tudo bem?

    Nos conhecemos no dia do lançamento do Sopa de Letras, até trocamos autógrafos. Parabéns pelo seu conto. Uma vez quando era adolescente, uma professora pediu que conversássemos com um idoso e lhe perguntasse sobre brincadeiras de antigamente. Foi uma experiencia bacana.

    Hoje estou dando uma zapeada pelos blogs dos autores do livro, por curiosidade mesmo.

    Fiquei arrepiado com esse conto. Não sei se é porque é de madrugada e estou na cama, mas gostei bastante. Parabéns.

    Estou seguindo seu blog. Parabéns por ele.

    Bjs e sucesso!

    Danilo Moreira
    http://blogpontotres.blogspot.com.br/

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  2. Olá, Danilo!
    Fico feliz que você tenha gostado dos contos, tanto do Sopa de Letras quando o do blog.
    Espero que também curta o resto dos textos que posto por aqui; opiniões são sempre bem-vindas!
    Muito obrigada e sucesso para você também!

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Quem escreve

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Thais Pampado. 20 anos. Escritora e estudante de Produção Editorial. Apaixonada por livros e por escrever. Lê praticamente qualquer gênero, mas tem uma paixão especial por fantasia e YA.
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