As últimas folhas do outono

             
     -Eu quero criar um jardim. O nosso jardim.
     O pequeno portão de ferro rangeu quando foi aberto. Pedaços de tinta descolaram das grades e colaram-se à mão do homem que o abrira, porém este não fez esforço para limpá-los. Chamava-se Pedro. Ele era uma figura alta e magra, e usava um sobretudo escuro para se proteger do frio daquela manhã de outono. Seus olhos, de um azul extremamente claro, pareciam escurecer frente à paisagem que se encontrava à sua frente.
     Naquele espaço, havia os restos de um jardim. Pedro se lembrava de como ele era antes: cheio de cores, os aromas das flores preenchendo o ar, a grama macia cobrindo o chão. E os risos dela sempre ecoando. De Marissa.
     Foi ela que teve a ideia de eles criarem um jardim. Ambos gostavam de mexer com plantas, e aquele seria o lugar deles. Quase todos os dias iam para lá. Acompanharam as flores surgirem e tomarem conta do espaço, as mudas de árvores ficarem mais altas que eles e começarem a dar frutos, as folhas caírem no outono e ressurgirem.
     Costumavam deitar-se na grama, conversando sobre bobagens, se beijando e rindo. Marissa era uma pessoa alegre; seu riso era fácil e estava sempre pronto a sair de seus lábios. Todos os dias, enquanto cuidavam do jardim, Pedro ficava ouvindo o riso de Marissa.
     Sempre achou que aquele riso era uma parte do jardim. Ele estava entranhado nas folhas, nas flores e nos frutos; era o que lhes conferia a vida e a beleza.
     E então, Marissa foi embora.
     Levou consigo seu riso, e Pedro ficou sozinho. Sabia que ela nunca mais retornaria ao jardim deles, e por muito tempo também não voltou lá. Até que, um dia, retornou, na esperança de encontrar algumas lembranças esquecidas.
     Foi nessa manhã fria, a última do outono, que se deparou com as flores murchas, a grama ressecada e as árvores vazias com suas folhas amareladas caídas no chão. Não havia mais cor, e o aroma no ar era agora o de abondono e tristeza; o jardim se tornara um cemitério.
     Pedro andou por entre os resquícios do que um dia fora um lugar de felicidade, sentindo as folhas estalarem sob seus pés. Seus olhos eram fendas de dor ao observar a marca da perda de Marissa. Ele quase podia ouvir o fantasma de seus risos ecoando, algo perdido para sempre. Ele tinha razão; o riso de Marissa, sempre ecoando, era o que dava vida ao jardim. Sem ele, não havia mais nada.
     Pedro parou em frente ao que um dia fora uma macieira, onde algumas poucas folhas resistiam em um galho mais baixo. Estavam já amareladas, fracas. O homem aproximou-se, e com um puxão arrancou-as dali. Segurou-as firmemente na mão, sentindo-as estalarem e se quebrarem entre seus dedos.
     Então foi embora do jardim, desta vez para sempre, deixando apenas uma trilha com as últimas folhas do outono atrás de si.



3 comentários:

  1. Muito bem narrado seu conto, Thais. E essa frase final achei ótima.


    bjs

    Rosa Mattos
    http://contosdarosa.blogspot.com

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  2. Lindo! Também adorei a última frase. Bjs!

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  3. Olá :)
    Achei linda cada partezinha de seu conto. Vc transmitiu muita emoção a cada palavra. Uma verdadeira escritora :)
    Beijos, linda semana!

    @morenalilica
    Doce Insensatez

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Quem escreve

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Thais Pampado. 20 anos. Escritora e estudante de Produção Editorial. Apaixonada por livros e por escrever. Lê praticamente qualquer gênero, mas tem uma paixão especial por fantasia e YA.
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