Ruínas



Você quer morrer.

Os passos dele estão se aproximando, e cada um soa como uma martelada em sua cabeça. Ele está vindo novamente, e você já perdeu a conta de quantas vezes ele já veio. A única coisa que sabe é que não pode fugir nem se esconder, e mesmo assim a cada segundo você se encolhe mais e mais contra a parede, porque ele está vindo e está trazendo mais dor e humilhação e ódio e desespero.
 Há quanto tempo está ali? Você não se lembra. Horas, dias, meses, quem se importa? Você não é mais Viviane, a empresária bem-sucedida que vivia uma vida normal e que pertencia a um mundo normal. Agora você pertence àquela cela imunda, sem janelas e mal iluminada; você é uma boneca de trapos cuja única companhia é o monstro, de olhos escuros e máscara de gente, que abre a porta e sorri um sorriso demoníaco enquanto repete aquela frase que diz toda vez que vem visitá-la.
- Hoje é um dia especial, Nanda.
Você não é mais Viviane. Você é Nanda, a boneca de trapos do monstro.

Você quer morrer.

Você ouve um guincho que lhe machuca os ouvidos e que lhe arrepia, e então percebe que ele saiu de sua própria boca. O monstro se aproxima, e você abraça o seu corpo nu e machucado e se encolhe ainda mais contra a parede. Ele ri e agarra seus pulsos com força para levantá-la, e quando a boca dele se choca contra a sua com violência você fica paralisada – de ódio, de nojo, de medo.
O monstro percebe sua falta de reação e separa seus rostos o bastante para lhe dar um tapa. Você já deveria estar acostumada com isso, não é a primeira vez que acontece; porém o gosto de sangue preenche sua boca e você se sente nauseada.
- Você não gosta de mim, Nanda? Vai embora de novo, Nanda?
Você sabe que tem que tentar não irritá-lo, porque se ele se irritar será muito pior. Então você reúne fôlego o suficiente para dizer, em uma voz tão rouca e quebrada que mal reconhece como a sua.
- Eu... gosto de você. Eu não... não vou embora.
- MENTIRA!
O monstro grita e a atira contra a parede, e seu crânio atinge a pedra com um som seco. Você sente a dor e vê a máscara de gente do monstro se deformando, transformando-se em um esgar de ódio, algo inumano que faz com que o medo se torne pavor.

Você quer morrer.

O monstro a levanta somente para jogá-la ao chão novamente, e então a chuta e a ergue de novo, trazendo-a para perto com um aperto de ferro que machuca seus quadris. Quando ele fala, seu hálito quente toca seu rosto; você sente o cheiro do álcool.
- Eu não vou deixar você ir embora dessa vez, Nanda. Vai aprender quem é que manda. Você se acha melhor do que eu, mas eu vou te provar que você... não... é!
As últimas três palavras são acompanhadas por um aumento na pressão de suas mãos, e então ele a beija outra vez, e dessa vez você o beija de volta, com a esperança de que isso faça com que seja mais fácil.
Não faz.
Logo o monstro se despe também e se deita sobre você. Você tenta ignorar a dor e esquecer que está ali, que é Nanda, que não é mais Viviane, que pertence a uma cela imunda e a um monstro violento e doente. Mas ele não a deixa esquecer, porque toda vez que você fecha os olhos ele os força a abrir novamente com um tapa. Para que você o veja. Para que Nanda saiba quem é que manda.

Você quer morrer.

Quando ele sai, trancando a porta, você fica caída no chão, sem qualquer força ou vontade de se mexer. Você ouve os passos dele se distanciando. Todo o seu corpo dói e você se sente suja e imunda e indigna. Logo a sua respiração entrecortada é o único som que você escuta. Você não suporta esse som, já que ele significa que você ainda está viva e isso quer dizer que o monstro vai voltar e trazer a dor e a humilhação e o ódio e o desespero novamente.

Porque você é a boneca de trapos do monstro.

Você é Nanda.

Você quer morrer.

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Quem escreve

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Thais Pampado. 20 anos. Escritora e estudante de Produção Editorial. Apaixonada por livros e por escrever. Lê praticamente qualquer gênero, mas tem uma paixão especial por fantasia e YA.
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